
Antes de mais nada, devo dizer que não sou defensor de Sérgio Moraes. Ao contrário, por acompanhar sua trajetória há algum tempo, afirmo que o deputado representa tudo aquilo que repudio em um político: formou-se na base do compadrio, da troca de favores, na falta de transparência, do puxa-saquismo. Também não carrego o menor apreço pelo deputado Edmar Moreira, aquele que possui um castelo no interior do estado de Minas Gerais. Confesso que quando me dou conta de que terei que aplicar as leis elaboradas por caras como eles, tenho até vontade de mandar tudo para o alto e começar de novo em outra carreira. Mas minha ideia não proferir críticas à atuação parlamentar dos dois. É sim, tecer breves comentários sobre o tratamento dado pela imprensa aos fatos ocorridos nessa semana. Não vou me deter a narrá-los, o que pode parecer contraditório, já que críticas à imprensa virão a seguir, porque creio que todos estão cientes do que tem acontecido envolvendo Moraes e Moreira (que com esses sobrenomes poderiam até formar uma dupla sertaneja).
Pois bem. É notório que pesam contra o deputado Edmar Moreira, acusações de três ordens. Criminalmente, tramita no Supremo Tribunal Federal, uma ação penal relativa ao crime (bárbaro) de apropriação indébita de contribuição previdenciária. Há no Conselho de Ética da Câmara, cujo relator é Sérgio Moraes, uma investigação por quebra de decoro parlamentar decorrente do suposto uso de verbas de representação em benefício próprio, pois os gastos seriam oriundos de prestação de serviço de segurança, por uma empresa do próprio parlamentar mineiro. E por fim, a Justiça Eleitoral acusa Moreira de não declarar que possui um castelo avaliado em R$ 25.000.000,00. A mídia brasileira, na divulgação desses acontecimentos, indiscutivelmente atribui maior repercussão ao caso do castelo. De modo sensacionalista, trata como se por si só o fato de o deputado possuir um castelo representa que houve apropriação indevida de recursos públicos e quebra de decoro parlamentar e exige a cabeça de Moreira, sem que a ocorrência dos fatos seja devidamente apurada. Indagado sobre a investigação que acontece na Câmara, Sérgio Moraes, extemporaneamente, mostrando seu total despreparo para exercer a função da qual foi investido, afirmou não ter encontrado irregularidades. Foi retrucado pela pessoa que o inquiria, que usou a existência do castelo e a reação da opinião pública em tom ameaçador.
Nesse contexto o parlamentar gaúcho proferiu a infeliz frase que se tornou famosa, mostrando seu desprezo pela opinião pública. Como eu disse antes, não pretendo discutir os políticos. Quero voltar minha atenção à atuação da mídia. É inegável que ela assumiu papel importante na reabertura política do país. Também é inegável que nesse episódio, como em tantos outros, a mídia nacional e os veículos de imprensa tem tido atuação totalitária, ditatorial, suprimindo um dos corolários da democracia: o devido processo legal. Hoje a bola da vez é o castelo. Como já foram o mensalão, a venda de sentenças, a fraude dos selos, a operação Rodin. A mídia traz a notícia, elege os culpados e exige suas cabeças com a mesma velocidade com que as informações são transmitidas. Mas assim que o tema se torna repetitivo e não vende mais jornais e revistas, deixa as capas, passa para pequenas notas e some. Parece que todos os escândalos se tornam pastas de um mesmo arquivo. Nós, consumidores da informação ficamos órfãos do desfecho das situações. Não sabemos se as nossas instituições competentes para os casos se mostram eficientes ou não. Mas de que seria necessário saber esse tipo de informação, se a mais grave sanção já foi aplicada, qual seja, a destruição da imagem.
Ouvi certa vez uma frase de Voltaire, que dizia o seguinte: “não concordo com uma palavra sequer do que dizeis, mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-las." Posso não crer que o castelo do deputado Edmar Moreira tenha sido erguido com seu próprio dinheiro. Pode o STF condená-lo, pelo crime que se constitui uma das maiores sacanagens que podem ser feitas por um empregador a seus empregados, a apropriação indébita de contribuições previdenciárias. A Câmara pode (e deve) entender que contratar empresa que pertence ao titular de um mandato e pagá-la com dinheiro público constitui falta de decoro. Mas é fundamental que todos os fatos sejam apurados, que as partes apresentem suas provas e que estas sejam submetidas a um juízo imparcial. Não posso aceitar que, em nome do lucro fácil, obtido através de frases de cunho sensacionalista e imagens chocantes revestidas de pose moralista, as empresas de comunicação coloquem em cheque garantias obtidas a um alto custo pelas gerações passadas, que visam assegurar ideais de liberdade. O mau jornalismo é tão prejudicial à democracia quanto a má política.
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